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O bê-a-bá dos códigos

Escola em Londres coloca em prática o que teóricos dizem ser o futuro da educação: o ensino de programação e linguagem computacional para crianças.

Rafael Cabral
Especial para o ‘Estado’

Foto: Gabby Ritchie/Arquivo Pessoal 

LONDRES – No final de 2012, em uma atividade anual que reúne pais, filhos e professores na escola primária St. Saviours, no centro de Londres, o tradicional cantinho de contação de histórias – no qual os alunos ouviam contos de monstros, fadas e bruxas – se voltou para algo completamente diferente: a programação e aprendizado de código computacional. “Queríamos dar às crianças as ferramentas para que elas pudessem contar as próprias histórias”, explica Lindsey Woodford, diretora do colégio.

A ideia saiu da cabeça de Nick Corston, empresário e pai de dois alunos, preocupado porque seus filhos poderiam se tornar meros usuários de tecnologia em vez de pensadores críticos da era digital em que nasceram e viverão. “A intenção é mostrar para as crianças que elas podem se tornar produtoras de conteúdo em vez de desperdiçarem todo o tempo delas com joguinhos ao estilo Angry Birds. Se elas forem direcionadas da maneira correta e mostrarem esforço, podem criar os próprios jogos e, com isso, se tornarem pessoas mais criativas e preparadas para o futuro”, afirma Corston.

Durante o dia livre, as crianças puderam se familiarizar com o Raspberry Pi, um computador do tamanho de um cartão de crédito que custa US$ 25 e que propositalmente deixa suas “entranhas” de circuitos à mostra, permitindo entender melhor como funciona a parte interna de um computador. Pelo preço acessível e alta possibilidade de customização, o computador criado por uma fundação inglesa tem sido usado no mundo todo para dar vida a uma infinidade de projetos – de máquinas de pinball a helicópteros.

Alfabetização. Os pupilos também aprenderam alguns conceitos de programação através do Scratch, um software desenvolvido pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) para tornar o aprendizado de código e robótica compreensível para crianças. Através do programa e do Raspberry Pi, crianças a partir de cinco anos conseguiram controlar um crocodilo-robô produzido pela Lego, o WeDo. Interpretando o código escrito pelos participantes, o crocodilo mordia o dedo de qualquer um que o colocasse em sua boca. “Foi fantástico, a grande maioria adorou e, para nossa surpresa, notamos uma grande parcela de meninas interessadas”, diz Corston.

O sucesso foi tão grande que a escola se conectou a uma organização nacional para a difusão de código, o Code Club, e agora oferece o curso como parte do currículo básico. “No começo eu me assustei um pouco, mas vi que pode ser fácil. Às vezes, é difícil ter de digitar a mesma linha diversas vezes até que o computador aceite, mas é legal dizer o que o robô vai fazer e criar coisas no computador”, diz Saskia Lee, estudante do St. Saviours de nove anos.

Iniciado por designers e programadores voluntários como um projeto-piloto em cinco escolas londrinas, o Code Club ganhou o apoio da ARM (gigante do setor de semicondutores) e expandirá consideravelmente seu alcance em 2013 para, em dois anos, alcancar 5 mil colégios (25% de toda a rede inglesa).

Assim como a ARM, outras empresas importantes do setor estão voltando seus olhos para o ensino de código e robótica para crianças em idade escolar – também um investimento para criar trabalhadores mais capacitados no futuro. A fabricante Dell patrocina o Apps for Good, que ajuda estudantes a criar aplicativos para smartphones para solucionar problemas cotidianos. E a Mozilla, que produz o navegador Firefox, gastou cerca de US$ 10 milhões para desenvolver um pacote de programas que ajuda a remixar a web, o Webmaker, e produz uma série de seminários e hackathons voltados para o público infantil.

De acordo com o presidente da fundação Mozilla, Mark Surman, trata-se de uma atuação estratégica, pois as crianças decidem entre os oito e dez anos de idade se querem se tornar criadores de conteúdo ou apenas consumidores.

Recentemente, o Google também decidiu apostar na tendência. O presidente-executivo Eric Schmidt esteve na Inglaterra para anunciar um esforço conjunto com a Raspberry Pi para incentivar o ensino de tecnologia em colégios e se livrar do velho currículo escolar que apenas as instrui sobre softwares como Microsoft Word ou PowerPoint. Para alavancar a parceria, o Google doou 15 mil Raspberry Pis para a rede escolar britânica e planeja outras iniciativas similares.

A alfabetização digital de crianças ganha força no mundo todo. No mês passado, Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, gravou um vídeo apoiando a associação Code.org – que também tem o respaldo de Bill Gates, fundador da Microsoft, e Jack Dorsey, criador do Twitter. Sites como Codecademy e Udacity, que oferecem cursos gratuitos de programação voltados para leigos, têm ganhado destaque nos últimos anos.

A ideia por trás disso é que, em um mundo governado pela internet, interpretar, alterar e criar códigos é quase tão vital quanto ler e escrever. Porém, o pretexto é essencialmente econômico: na Inglaterra, dados governamentais mostram que a procura por cursos superiores de ciências da computação diminui a cada ano, enquanto a demanda por trabalhadores capacitados na indústria de tecnologia crescerá anualmente 1,6% até 2020, exigindo a entrada no mercado de 130 mil pessoas ao ano.

Uma ideia, um comando e uma mordida

Na escola londrina, 240 crianças já começaram a programar. Mas o pai responsável pela iniciativa, Nick Corston, sabia muito pouco de linhas de código. Ele foi inspirado por uma palestra no TED dada em 2006 por Sir Ken Robinson, que dizia que o atual sistema educacional inglês poderia matar a criatividade das crianças. O programa de ensino de códigos é detalhado: primeiro as crianças aprendem o que é o Raspberry Pi, o computador de US$ 25, e descobrem para que serve cada uma de suas portas.

Depois, elas são introduzidas à linguagem de programação Scratch, para programar comandos básicos. As crianças aprendem primeiro a jogar um game de gatos escrito em Scratch; depois, descobrem como cada comando escrito interfere nas ações do gato. Por fim, começam a alterar o funcionamento do jogo. O crocodilo vem no final: as crianças aprendem que podem escrever comandos que são lidos pelo Raspberry Pi e, ali, são transformados em ações físicas no réptil feito de Lego. Os códigos viram mordidas: o robô abocanha o dedo de quem o coloca em sua boca.

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Desenvolvedor do Opera fala sobre o futuro do HTML 5

Em entrevista para o Olhar Digital, Mike Taylor diz que as possibilidades de uso da linguagem são intermináveis, basta ter criatividade

OPERA

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O HTML 5 é a nova versão da linguagem de programação usada hoje para desenvolver sites. Mas, para quem não sabe, o Opera foi o primeiro a adotar essa tecnologia em seus navegadores. Em 2003, Mike Taylor, desenvolvedor do browser, se apaixonou pelas possibilidades da linguagem e, desde então, vem trabalhando em cima disso. Ele é expert no assunto e prevê um futuro promissor para o código. Em um bate-papo rápido com o Olhar Digital, o desenvolvedor falou sobre as possibilidade da plataforma e ainda adiantou algumas novidades da próxima versão do Opera.

Olhar Digital – O Opera foi o primeiro navegador a usar o HTML5. Como vocês previram que esta linguagem se tornaria padrão?

Mike Taylor – Quando o HTML 5 estava sendo desenvolvido pela W3C [em janeiro de 2008], o pessoal do Opera teve a ideia de fazer nossa própria versão da linguagem. Pensamos em facilitar a nossa vida, porque era muito mais fácil e legal de desenvolver com ele e, também, oferecer uma melhor experiência para os usuários. Assim como no começo do próprio HTML [criado por Tim Berners-Lee na década de 1990] tivemos uma lance mais experimental que deu certo. Algum tempo depois, a Mozilla, Apple e, mais tarde, o Google se uniram a nós, incentivando a adoção.

Olhar Digital – Quais são as possibilidades do HTML 5?

Mike Taylor – São muitas, mas o grande sonho é a construção de aplicações nativas. Uma das coisas que as pessoas estão mais empolgadas é em relação ao Web RTC [Real Time Communication, ou, “Comunicação em Tempo Real”]. Temos muitas pessoas inteligentes trabalhando em APIs para que seu browser se comporte como se fosse um telefone IP. Imagine se conectar com uma pessoa pelo navegador, sem precisar de plugins ou softwares proprietários, como se fosse o Skype? Ou ainda criar games que possam ser jogados diretamente do navegador? As possibilidades são intermináveis, especialmente nos smartphones. Com o HTML 5 vai ficar muito mais fácil navegar em telas menores, porque ele será inteligente o suficiente para entender que você está em um dispositivo pequeno e, portanto, as fotos não precisam ser exibidas tão grandes e pesadas. As pessoas gastariam menos dinheiro e tempo com a navegação. Enfim, eu acho que as possibilidades do HTML 5 dependem apenas da imaginação das pessoas.

Olhar Digital – Então, o HTML 5 não será substituído em breve?

Mike Taylor – Com certeza não. Acredito que em algum ponto, daqui cerca de seis anos, alguém vai perceber que será preciso definir o HTML 6. Mas, provavelmente, vai demorar alguns anos. Ainda temos muito o que explorá-lo.

Olhar Digital – E as novidades para a nova versão do Opera?

Mike Taylor – Como disse, temos trabalhado muito com RTC e outras coisas nativas como um photobooth, onde as pessoas podem tirar fotos direto do navegador, colocar filtros e enviar por email. Também anunciamos a nossa Opera TV Store, uma plataforma unificada para televisões inteligentes. Ela é bem diferente de outros modelos, pois é uma interface entre a TV e a navegação do usuário. Eles podem navegar, comprar e rodar aplicativos que usam tecnologias web como o HTML 5, Canvas, SVG e etc neste espaço. O legal é que também dá para ser usado em set-top box ou Blu-ray, por exemplo.