Pernambuco sempre esteve à frente de seu tempo. Desde a ocupação dos holandeses, lá por 1630, o estado tinha um intenso comércio, sobretudo em Recife, onde os comerciantes eram chamados de “mascates”.

Anos, décadas e séculos se passaram e hoje a cidade pernambucana mostra que tem muito mais a oferecer ao Brasil e ao mundo do que sua bela paisagem e seu famoso Carnaval ao som do frevo e desfile de blocos e troças.

Berço de importantes centros de inovação e do maior parque tecnológico do País, Recife é atualmente o maior polo tecnológico do Brasil. Cada vez em maior número, multinacionais como IBM, Accenture, Microsoft, HP e Samsung, escolhem a região para instalar fábricas e centros de pesquisa.

Em março do ano passado, foi a vez da Fiat Chrysler. Ela anunciou que instalará um centro de pesquisa e desenvolvimento em Recife, que será localizado dentro do parque tecnológico Porto Digital, fundado em 2000 para fomentar a área de tecnologia de informação no Nordeste.

Desde os anos 70, quando foi criado o curso de Ciência da Computação na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a cidade formava um grande número de profissionais qualificados na área de TI, o que gerou de um crescimento de empresas para servir a indústria local.

“Entre os anos 70 e 80, Recife tinha se tornado uma referência regional na área de TI. Mas, com a crise dos anos 90, a cidade perdeu muitas empresas, que faliram ou foram compradas por outras e tiveram de migrar principalmente para as regiões Sul e Sudeste”, explica o diretor de inovação do Porto Digital, Guilherme Calheiros. “Houve uma quebra no desenvolvimento de todo o estado e as pessoas que se formavam saíram daqui.”

Na época, Pernambuco se tornou um dos estados com o maior número de exportações de mão de obra qualificada do País, principalmente para o eixo Rio-São Paulo, e até para o exterior — o que exigiu um movimento para frear esta situação.

Na contramão da debandada de empresas e profissionais, foi criado o Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (C.E.S.A.R.), em 1996, hoje localizado no já citado Porto Digital, criado em 2000.

O C.E.S.A.R. é um centro privado de inovação que desenvolve soluções em todo o processo de geração de inovação em e com tecnologias da informação e comunicação. Hoje conta com mais de 600 colaboradores e oferece incubadoras, cursos profissionalizantes, mestrado e pretende criar cursos de graduação (todos voltados para a áreas de Engenharia, Tecnologia da Informação e Design).

No último ano, o centro faturou R$ 80 milhões e em seu portfólio já passaram grandes empresas como o instituto Coca-Cola e Telefônica VIVO.

Já o parque tecnológico Porto Digital abriga mais de 250 startups, pequenas, médias e grandes empresas e multinacionais que somam mais de 7.100 trabalhadores em uma área de 149 hectares.

O parque é gerenciado de forma privada por uma Organização Social (O.S.) sem fins lucrativos, o Núcleo de Gestão do Porto Digital (NGPD), e conta com incentivo do governo para desenvolver empresas nascentes nas áreas de economia criativa, tecnologia da informação e de desenvolvimento de softwares. O parque totalizou um faturamento de R$ 1 bilhão em 2014.

“Quando os incentivos à tecnologia surgiram, as empresas começaram a crescer, a gerar oportunidades e reter os talentos de Recife”, diz o superintendente do C.E.S.A.R., Sergio Cavalcante. “Por tanto esforço, atualmente Recife é o maior polo tecnológico, em termos de projetos desenvolvidos e nascimento de empresas.”

O tempero pernambucano

Não só a história ajudou Recife a carregar o título de polo tecnológico. A cidade tem alguns pontos fortes que atraem as empresas.

De acordo com um estudo da consultoria Urban Systems, Recife é a cidade brasileira com a melhor infraestrutura para negócios — além, é claro, de ter um ótimo capital humano, como foi dito anteriormente.

A cidade também se destaca em áreas fundamentais para o desenvolvimento e expansão das empresas, como uma localização estratégica para o Nordeste, e o transporte, com Porto do Recife e com o melhor aeroporto do Brasil, de acordo com a Secretaria de Aviação Civil (SAC).

Recife também foi a segunda cidade do Brasil a receber fibra óptica da Telefônica Vivo, atrás apenas de São Paulo.

A boa fama na área de TI e empreendedorismo também trouxe o maior evento de tecnologia do País, a Campus Party, que está rolando até este domingo, dia 26. Esta é a quarta edição do evento na cidade.

Do gargalo à solução

Segundo Guilherme, do Porto Digital, com o crescimento, Recife adotou alguns problemas bem conhecidos por outros centros urbanos, como a falta de segurança, falta de iluminação pública e, o principal gargalo da cidade: a mobilidade pública.

Mas, como uma cidade que reúne poderosos centros de inovação e empreendedorismo, tais limitações se tornaram uma oportunidade de negócio para os pernambucanos. “Projetos como do Itaú, de espalhar bikes laranjas pelos centros urbanos, foram iniciados aqui”, diz Guilherme.

Partindo da mesma ideia, agora o desafio é outro: o Porto Digital está testando o primeiro sistema de compartilhamento de carros elétricos (car sharing) do Brasil, solução para melhorar a mobilidade urbana. A ideia é que o projeto incentive a carona através de um sistema que facilite o compartilhamento de rotas.

“Esperamos que, com a consolidação da ideia, o poder público veja seu valor e resolva expandi-la, como aconteceu com o aluguel de bicicletas que hoje já tem mais de 70 estações”, disse o Presidente do Porto Digital, Francisco Saboy.

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Fonte: http://exame.abril.com.br/tecnologia